PIB sírio caiu pela metade com guerra, diz analista

I gave the following interview to Brazilian magazine Valor in September 2013.

O jornalista sírio Jihad Yazigi mantém desde outubro de 2001 um site de notícias e dados econômicos, o Syria Report (syria-report.com). É um serviço pago em inglês que tem como clientes empresas estrangeiras e também grandes grupos locais. A pequena redação funciona em Damasco. Antes de o país afundar na guerra civil, eram seis funcionários. Agora são apenas dois. O próprio Yazigi, que é cristão ortodoxo, decidiu deixar a capital síria com a mulher e os dois filhos em setembro do ano passado por segurança. Ele vive e dirige o site de Beirute, no Líbano. Nesta entrevista ao Valor, ele fala sobre o colapso da economia síria e das dificuldades das empresas em meio à guerra civil que assola seu país há dois anos e meio.

Valor: O que aconteceu com as empresas na Síria nesse período?

Jihad Yazigi: Nos primeiros seis meses, o que se via principalmente era um grande movimento pacífico e, portanto, o impacto sobre a economia era bastante limitado. No segundo semestre de 2011, a situação começou a ficar mais violenta e isso passou a provocar um impacto significativo em muitas empresas. Agora, o que há é uma guerra realmente. Muitas empresas pararam sua produção; muitas companhias estão de portas fechadas, foram saqueadas ou destruídas. Não há muitas empresas estrangeiras na Síria, mas há muitas empresas privadas nacionais.

No meio do ano passado, os conflitos chegaram às duas cidades que são os centros econômicos da Síria, Damasco e Aleppo. E muitas fábricas foram fechadas por causa da violência. Os funcionários não conseguiam ir para o trabalho e às vezes nem era possível levar matéria-prima até as empresas. As que conseguiam produzir, não conseguiam distribuir seus produtos. Entre essas empresas [afetadas] estão estrangeiras do setor de óleo e gás, como Total, Shell e Suncor, que foram obrigadas a seguir as sanções internacionais impostas à Síria e tiveram de deixar o país. Empresas chinesas ainda estavam operando até o mês passado, mas Pequim ordenou que elas deixassem o país.

Valor: Alguma empresa brasileira foi afetada?

Yazigi: Havia um investimento brasileiro, uma refinaria de açúcar, que produzia cerca de 1 milhão de toneladas por ano. Era uma joint venture entre Crystalsev, Cargill e um investidor sírio [A Crystalsev informou que vendeu sua participação no empreendimento para os sócios em 2010]. Eles estavam perto da cidade de Homs. Homs foi um centro da oposição, mas agora o governo controla a maior parte da cidade. A fábrica ficava nos arredores da cidade e parou de produzir primeiro por um conflito dos acionistas e depois por causa da violência. Eles ainda não puderam retomar a produção.

Valor: As empresas que têm sido afetadas são de quais setores?

Yazigi: A economia síria é bem diversificada. Tem um setor industrial forte em têxteis e alimentos; agricultura, que representa cerca de 20% do PIB; óleo e gás; turismo, que estava crescendo; transporte e logística. Mas as sanções internacionais limitaram as exportações. O setor industrial foi o mais afetado pela destruição da guerra, além, claro, do turismo.

Valor: Qual o impacto sobre a economia?

Yazigi: A economia foi totalmente destruída. O PIB encolheu mais de 50% nos últimos dois anos. Os danos à estrutura física foram avaliadas em cerca de US$ 1 bilhão. O PIB em 2010, um ano antes do início da revolução, era de US$ 60 bilhões; agora está provavelmente abaixo dos US$ 30 bilhões.

Valor: Há escassez de comida e de outros itens básicos?

Yazigi: As áreas controladas pela oposição são alvo de bombardeios, e o transporte e a distribuição de produtos estão bastante afetados. É o caso dos arredores de Damasco. A oposição controla entre 40% a 50% do território sírio, onde vivem cerca de 20% da população. Nas áreas controladas pelo governo, que são os grandes centros urbanos, as pessoas têm acesso mais fácil e o governo também importa alimento para essas áreas. De modo geral, a oferta de alimentos básicos ainda é suficiente, há açúcar, pão, chá e carne. Às vezes faltam alguns itens, os preços sobem muito, mas não é o caso de uma situação de fome.

Valor: Que setores estão se aproveitando da guerra para aumentar seus ganhos?

Yazigi: Empresas de segurança privada, empresas que importam geradores elétricos, que são muito demandados por causa dos cortes de energia. Além disso, a Síria tem agora uma economia de guerra. Há muito contrabando. Em algumas áreas controladas pela oposição, por exemplo, não se encontra farinha para fazer pão. Então eles compram da Turquia, embora as fronteiras sejam controladas pelo regime. Há muita gente fazendo dinheiro com a compra de armas e outros produtos das áreas controladas pelos militares para áreas de oposição. Há também muitos casos de saques; no começo, feitos por pessoas do regime, mas agora não mais só por eles. Pessoas entram em casas e empresas, roubam tudo e vendem. Virou um novo negócio. Outro “negócio” que cresce é o sequestro. Muito empresários estão evitando vir à Síria não tanto por causa da guerra, mas por medo de serem sequestrados.

Valor: A classe média e as famílias mais ricas vêm tirando seu dinheiro do país?

Yazigi: Sim, estima-se que bilhões de dólares foram retirados do país nos últimos dois anos. E essa é uma das razões que fizeram o câmbio disparar. Antes da revolução, US$ 1 valia 47 libras sírias. Agora vale 200. Muita gente correu para comprar dólares, a demanda aumentou e o preço disparou. Cada vez que a crise política se intensifica, o dólar aumenta. Na semana passada, com o temor de um ataque dos EUA, o dólar chegou a 250 libras sírias, mas depois voltou a 200.

Valor: Que outros efeitos a ameaça de ataque produziu nos sírios?

Yazigi: Houve um aumento no número de pessoas deixando a Síria em direção ao Líbano. Geralmente, as pessoas levam meia hora para cruzar a fronteira. Mas, na semana passada, quando aumentou o medo de um ataque, muita gente teve de esperar 12 horas para cruzar a fronteira devido ao grande número de pessoas tentando sair.

Valor: Um ataque americano à Síria abrirá caminho para o fim do regime de Bashar al Assad?

Yazigi: A Síria sempre foi muito anti-EUA porque os americanos têm um histórico terrível na região. Mas a nossa escolha agora é entre o que é ruim e o que é muito ruim. Um ataque será ruim porque ninguém sabe as consequências. Mas é a única chance. Se os EUA não atacarem, se não houve nenhuma punição ao regime, haverá mais ataques por parte do regime.

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